Terça-feira, Novembro 10, 2009

...

Era uma tarde de novembro
e havia a sombra de cem anos...
O braço pendeu ao lado do corpo
para longe do corpo, o silêncio repentino
de uma tarde de novembro,
as mãos vazias,
uma esferográfica rolando pelo assoalho,
nenhuma mitologia, nenhum estruturalismo,
e nenhuma diferença: uma fotografia com alguns homens de vários continentes, com feições distintas e com o mesmo olhar e sorriso humano de amizade.


Claude Lévi-Strauss


Era uma tarde e era novembro
desde o dia antigo
ao dia último
o mesmo amor pelo homem
e pela vida.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Agualusa livre

“Em criança tirei um pássaro de dentro de uma pequena gaiola.
O pássaro não voou.”
Não saberia o pássaro que era céu
olhar vôos e sê-los.
Ciculou-se ciclópico,
deu-se voltas e mais voltas
refletindo-se nos espelhos e nas grades.
Não sabia... sobreviver e voar e longe
circulou-se sem rumo, é certo...
Era criança livre depois prêsa,
crescida e prêsa,
guerreira e prêsa,
quase muda – livre.
Entendia: a gaiola era cidade...
sentia-se sufocado e via as pessoas em ruas,
em vias de tempo sujo e asqueroso.
Sentia o peso das correntes e das dobras das fardas...
e no mudo queixo quebrado,
desmundo do imundo passeio das tiranias
mirou os prédios mais negros,
deixou-se escorrente lágrima...
Aquela estação das chuvas àquela praça
expunha-me como o pássaro...
“Aquela cidade já não me pertencia ao meu organismo, era uma prótese.”



Sábado, Outubro 31, 2009

personagem





Eu te menti,
Tu me mentiste.
Nós nos mentimos.
Nós nos metemos
onde não fomos chamados.


Eu – sem querer – te desmenti.
Tu – então – te espantaste.
Ruíam as tuas bases,
perdias a tua geografia.
Ousaste de súbito uma pirueta,
cantaste delírios proféticos.
Entregaste os pontos que nos atavam:
foste se afastando,
afastando,
fastando...
um dia não eras!


Nossos personagens percebiam:
esquecíamos
na verdade
nossa história!

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

do ao pelo como

Eu provo do sangue, do vinho,
da água que arde na boca agreste...

Eu rogo ao tempo, ao vento,
aos cinco elementos, ao raio de leste...

Eu juro pelo calendário, pelo sacro rosário,
pelos ritos de maio, pelo lácio da última flor...

Eu vivo como um desafio, como um desatino,
como um sutil artifício do amor...

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Mudança de planos

Eis o código:

quando a noite chegar
faremos sombras,
quando amanhecer
desenharemos sonhos!

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

- !







Estou ligado à fonte de tudo
como a você,
como você também está ligada
e como eu acredito:
essa corrente mantenedora
de todo amor, de todo ódio,
de toda iluminação!

Tremo entre mim:
a energia do corpo,
meu abrigo, teima ambígua
em tantas camadas,
em tantos tecidos,
em tantos sentidos
que nunca adormecem
nem tentam destinos.

Estou conectado àlgum ponto
tão infinito quanto um sonho
de tantas gerações e de tanta vida
esquecida
lapidada.

Estou ligado à fonte de coisas,
com olhos de coisas,
com coisas de signos,
uma superfície branca de coisas
(de coisas mais profundas)
que em mim alimentam as correntes
que contínuas se alternam
em busca
(não de uma caligrafia)
talvez de um detalhe
às possibilidades
de tudo que possa
inexplicavelmente iluminar!

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

pequena pausa

coisas do tipo me acometem. Sei que
as rochas ganham formas e contornos no choque com o mar.
mas a quem o anúncio de formas pretenciosas é mais chão.
contudo o mar que cerca esse corpo é feito de rochas e vegetos.
a espinha de Minas passa ao meu lado,
o sol se põem mais alto, as formas... quem dirá das formas?
cada nuvem traz a sua forma e é uma questão tão de vento e céu.
tão passageiro que não se pode reduzir a nada
e se reduz em chuva, torna a sede, lava.
coisas do tipo acometem, cometem céus.
sei que, os grãos estão nascituros, férteis revelarão outros formas
e teremos sempre mais contornos.
acometem-me coisas do tipo:
eu também erro, eu também falo coisas desajeitadas,
como todos
eu também aprendo!

agora um silêncio...

... adiós!


www.fabiaolima.files.wordpress.com

Sábado, Outubro 03, 2009

a Primavera

Chega de mansinho a primavera,
no caminho para as borboletas,
chega de vermelho tom de rosa
e rosa no frescor do jardim.

Chega assim, com ipês amarelos,
com o lilás das buganvílias,
com os cravos sortidos e as alvas margaridas.

Chega de botão em botão a desabrochar,
com um ar de pólen no ar,
com pássaros diluindo no céu
plumas e cantos de açucena.

Chega num poema atrasado,
de begônias abertas e amores-perfeitos,
com motivos de lírios e dálias.

Chega com rubros de tulipa
e claros de dama em noite de baile,
chega com toques de gardênia,
com luzes de girassol
e com bailes de verônica.

Chega de mansinho, a primavera,
no caminho dos insetos que zunem
na manhã colorida da estação secreta
da vida!

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Manifesto palavrar espacial

Há (será?) espaço e palavra!
Haverá espaço para a palavra nascente
como adjunto do corpo e mente?
Pensada a palavra tem vez na tez,
no talvez da lente, no reflexo do flash?
A palavra no quadro falso negro,
no centro negro – palavra escura,
palavra de pensar em volta
palavra de revolta que volta impura.
A palavra fétida eclodindo do bueiro,
a céu aberto a palavra escorre
decorre sobre horas, filos, rios...
A Palavra que há sentida
e refletida tarda o rasgo da amarra.
A Palavra de Huang Che tem pegadas de estrelas
e revira o espaço sideral.
A palavra escrita não se explica, não se aplica...
nem Lacan, nem Bakhtin ou/e outras teorias.
Nem o talvez do sim e enfim o não do nada...
A palavra lavra, é larva descendo
um dia vai queimar o que não for pedra
a pedra tornará a ser o que não fora
e restará o que se pensa ser o mito.
É preciso construir a palavra como um baluarte,
uma represa, um farol, um moinho
Um símbolo despido do símbolo...
será impossível?
A palavra se denuncia na fala, no plano
do plano espacial.
Quer seja escrita, quer seja escrota,
quer seja rota e quer seja nova...
quer seja igual verbo e o verbo seja distinto:
a palavra é o ponto
e o ponto é infinito!

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

escrituras

escrevo tão mal e ainda teimas em ler
cada linha reta na tortura de pensar
que se não me fosse permitido escrever
eu para o mal alheio viria de pintar.

Só porque talvez eu necessito me expor
sem que alguma vírgula ouse dividir
qualquer ódio que desabe sobre o amor
e mesmo o amor que chegou a não partir.

escrevo pela estrita escrita de remir
o que em mim nunca hei de encontrar
e é como um desejo de chegar a partir
ou como certeza de não falar sem calar.

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

...

Disse o imperador
que a história é uma versão
na qual decidimos acreditar
.
Talvez eu devesse não acreditar
no grande imperioso:
ele faz parte da história!

Terça-feira, Setembro 15, 2009

álbum esquecido

A pouca luz, a pouca sombra,
o sopro poente fremi...
Essa presença, esse perfil,
esse movimento silencioso do tempo
torna perplexos-ecóicos
os sentidos do corpo.


Mesmo que as palavras
adormeçam suspiradas,
detenham-se em sonho
com soslaios rudimentos,
mesmo que a sinergia dos amantes
fecunde solos áridos
e lance anelos e rupturas
e negações concubinatas,
encolherás todas as fibras
à recrudescência das nuvens
para sorver suavemente
as líquidas quimeras do teu relicário.


Alada suspeitas Ismália e voas
ambivalente... sobre o éter,
sobre os medrantes estorvos
do que infinda nas mãos, nos olhos
e resta acre sobre os lábios
como sombra, como luz
como marcas e resquícios...
como o infinito...

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Ao teu lado

Ao teu lado eu sou mais rente
à luz e à sombra, ando no meio das horas
sou tanto são quanto demente.
Ao teu lado eu sou febril e fremente
de um amor assim sem limite
que assiste a alma das cores
e a minh'alma deixa ardente.

Ao teu lado sou o sol e a lua
sou a natureza avançando os continentes.
Ao teu lado o universo é pequeno
e eu posso pular os mares e os oceanos,
ao teu lado os meus sonhos têm relevos
e são profundos os meus planos.
Ao teu lado inexiste os enganos
eu fecho os olhos com um jeito mais seguro,
e sinto a propriedade do orgulho
de te ter ao meu lado e sempre.

Ao teu lado eu sou adolescente, sou criança,
sou um ser nascituro e imaginado,
ao teu lado eu sou o teu lado, teu número,
ao teu lado sou a essência da vitória.
Sou a força e a coragem, ao teu lado,
sou a folha, sou o tronco, sou a raiz.
Ao teu lado sou um deus sem pecado
e divino, sou o homem mais feliz!

sob um poema doutro poeta (confidência poética a Professora Maria Regina)

Querida Maria, tenho sentido a despedida
de um velho império como o Império Asteca
e, às vezes, me sinto uma veste encardida
ou como um fantasma dito de um morto poeta:


"súbita mão de algum fantasma oculto
entre as dobras da noite e do meu sono
sacode-me e eu acordo, e no abandono
da noite não enxergo gesto ou vulto."


Perambulo horas de leitura, silêncio besta
entre as primeiras horas de um dia triste
e penso que hei não de ter o que mereça,
não ter escolhido um erro que ainda insiste.


E fico sem saber, caduca palavra sem trema,
se teimo que esteja negro meu coração
ou se tudo é culpa do Pessoa, do poema
escrito pela sombra virtuosa da ilusão.