segunda-feira, março 26, 2018

XL





Ah! Há algumas coisas que nunca vão mudar...
uma delas é essa dor interna sem explicação que eu sinto
e que arde sem que eu possa curá-la.

Essa ferida que desde sempre impregna todos os meus olhares,
que segue dando cheiro e contorno ao meu corpo
que me faz brigar para ser agradável com as pessoas
para que elas sejam agradáveis com os outros:
há muita coisa pessoal...

Essa dor, que nem é dor e nem é marca
e que mesmo sem arder, queima e não cicatriza
Essa dor vazia de dor e cheia de dor
que na lua cheia quer domar o corpo e levá-lo ao impossível.

Ah! Dolorido e vadio rasgo que não branda nem acalma,
ao contrário,
cresce e reverbera credo,
que é como um segredo de gelo que não derrete
e vai gelando a alma...
que é como um segredo de neve que derrete
e vai molhando a alma...
que é como um segredo
e mergulha...

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Poe(ta?)ma!






O poema não diz, sangra o poeta!
Se queres me ouvir, leia-me!
Verso torto, não se sabe
e acontece de repente,
sim, porque o poema é poente,
última borboleta do dia:
P-O-E-S-I-A!
À noite será outro esquema.
Poeta dos falsos poemas,
dobre as tuas feridas,
recolhas a misericórdia
e como se a manhã não se houvesse,
descuide de tudo e parta.
Pode ser que chova, mas não te sufoques.

O poema? O poema não diz,
corta...
taciturnamente o artesão se afasta:
aquilo não era palavra,
era foice...
e a chuva não era lágrima,
era ácido...
Não te enlouqueças por tão pouco.
O fato é sempre central (?),
marginal é a conseqüência (!).
O poema sobre o poema:
um poema, uma pedra no caminho, um sei não, um talvez...
Mas não há quem se prive do sermão,
o poema não se deve a razão,
ele é o esperma,
medíocre perfeição...
o Poe(ta?)ma!


consummatum est

novembro de 2008



O mundo é besta como todos que o habitam.
Quase que como um conceito, ditos amigos
não compartilham doces e salivas.

Amigos deveriam ser como irmãos, não como sócios.
Mas cada qual oferece o conceito que lhe apraz mais cabível.
Aí está inaugurado o canalha, o canalha velhaco.
Pede-te um abraço para cravar mais profundamente o punhal.
Não, não interessa a morte, (pelo menos a ti não)
mas a superioridade da carne à ideia.
Tens mulher, tens filhos... pouco interessa,
na urgência da pressa e da sociedade...

Sócio é sócio! Mas não quero crianças, nem mulher alheia!
Mas bem podia verificá-la! Sociedade tem dessas coisas:
um pouco de desconfiança , ganância e egoísmos!
A mim, chegávamos, decerto, a amigos!
Quanta coisa besta essa e o mundo!
Tínhamos, sim e entre discursos, uma sociedade!

Como sou mais besta que todos em desapego e verdades,
faço uma proposta:

fique com a minha parte!

quarta-feira, janeiro 03, 2018

ao seu primeiro filho



Gosto de ler teus versos, tua voz em grafias...
a tua fantasia de amor, poesia e caos deu-se.
E já não é mais fantasia ou caos...
E já não és fantasia ou caos... Poeta!
Poeta!
Poeta! E o mundo se fez ao teu lado.
E ele pode ter vida própria,
ele pode te comprar - não se venda
ou se venda bem caro.
O artista é só um produto... penso nisso, assim.
não deve ser tão cruel consigo,
seja com os outros - se suportar esses descabimentos!
No mais, saudades de versar a beira de qualquer lago,
ou'té  em serras.
A poesia é uma oração!
No último ciclo, deixei poemas secarem,
perdi a finalidade da fé.
Eu tento tanto tudo que a tecla deixa em tentativas.
Volto aos manuscritos amarrotados,
aqueles de antes,
de cadernos amarelados - com um ou dois
versos seus, amigo...
No canto esquerdo o dia nasce
e eu fecho os olhos em protesto
( sem olhos verdes ) peço:
"Um café!
Para completar o cigarro que acendo
Na varanda."


para Warley Cardoso, poeta e amigo!

alegorias



Não há glória em deixamentos,
não há méritos em possibilidades.
Tudo que se foi, nem mais lamento
 e ficou para eternidade.
 


Não sou eu que fabrico finidades,
a mídia, talvez, tenha esse sortimento.
Agora meço minha finalidade
pelo desvão do meu pensamento.







































quinta-feira, agosto 03, 2017

Tentativa De Gritar Tua Palavra Em Silêncio








De teus dedos fluí o silêncio...
Como canta o teu espanto
contra(?) o mundo e suas margens,
entre(?) os erros e os seus equívocos,
e do que fazes tua miragem
poetalítica-mitótica!

Assim, repara:
palavras flutuantes, mergulhantes,
                                           afogantes
na forma argilosa do tempo,
no tempo pedaço-partido-atemporal:
cutâneas!
É em tua pele que a grafia arranha,
tatua, lasca
os sentidos sentimelosos, sentibelos,
                                       sentimentalizados!

Então, respira:
frases lançadas, trançadas, poluídas,
sonolenta realidade fugitiva,
pelas dobras da carne e suas mitologias,
nas expostas amostras: poesia!

E, de tua voz...
ah! de tua voz
o silencio e o grito;
a tempestade e a calma-
- ria; distâncias refletidas que conclamam 
substanciosas noturnas luzes,
olhos felinos revelindo
em teu canto...

outros cantos!


domingo, abril 02, 2017

encomendas e pedidos


Soneto de Danúbia




Quando te amo simplesmente à mínima hora
e sobre o teu corpo o meu corpo se assegura,
sinto-me a tarde plena da noite e a aurora
que desenha em mim eternamente tua ternura.


O teu sorriso é como toda flor de todo dia
e o teu olhar toma meu corpo por inteiro.
Perto de ti minha alma brada de alegria,
longe de ti se desespera o meu peito.


Eu sou este teu homem, teu muchacho bajo
que te olha com paixão e se entrega imenso
a cada beijo teu, a cada movimento rente,


tu és a força que envolve, o vento
que tateia a natureza danúbia do presente
e que me leva sempre em teus braços.


sábado, março 04, 2017

efeitos da natureza


Enlaçado em tuas fagulhas vão meus olhos,
como criança rodando em noite de fogos,
como criança jogando balões, riscando traques
e arriscando ataques luminosos contra a vida.
  
Enlaçado, meus olhares, em teus colares
seguem todas as cores de teu caminho
e tu, moça pulsante, sorrindo... sorrindo
com efeitos refeitos de solos lunares.

 Nem pensas em redemoinhos,
não decreta ventos ou tempestades,
mas saibas que travas a batalha

Que brasa do céu um desvario,
de relâmpagos e raios faiscantes
mesmo que não venha a água!

o resto do sonho


  


Resta um pouco de um resto açoitado
pelo vento que teima a afronta,
vem limpar a poeira do passado
e deixar o que realmente conta.


(...)


Eu concentro o meu centro no que faço,
eu mergulho na vida a minha pena,
eu seguro, eu aperto, faço o laço
e envergo a palavra no poema.

Eu descrevo, eu desejo, eu insisto,
tento romper sem vão o verso.
Vou aos poucos despindo-me de mitos
e deixando para trás velhos desertos.

Eu construo o escuro do segredo,
eu reclino o enigma do nada.
Estridente grito de medo,
eu sou feito de nuvens sonhadas.

E tudo que vejo e sinto
são teus olhos tristes e cansados
condenando-me, me ferindo,
desejando poemas queimados.


(...)


Calculado – noves fora nada –
o baú de estórias está vazio.
Recolha a última palavra
como o mar sutil acolhe o rio.

E o poema, então, adormecido
vingará quando o sol desvencilhar
o sonho: flor do abismo

que sangra sem estancar! 

o Ser evolutivo





Se aquele que foi
:
fosse
:
e noutro tempo
sem glórias
ou conquistas,
somente voasse,
não como os seres celestiais
imaginados,
mas como uma folha
sob as proporções do vento,
caísse sem mácula
sobre a terra
e semeasse,
não um novo e belo mundo,
mas a força evolutiva
 deste:

.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

DUO IMPERFEITO




Meu amor sonhávamos desnudos
quando inda éramos crianças.
Tu com tuas tranças,
eu com meu orgulho.

Brincávamos no escuro da estrada
e te amava a perder de vista...
Eu era o burocrata,
tu eras a artista.

Meu amor corríamos às léguas
debaixo da chuva rala.
Eu que molhava as pernas
tu encardias as anáguas.

Morremos no reflexo do açude,
quereríamos a vida à morte.
Tu com teu jeito forte,
eu com meu jeito rude.

Mas eis que o tempo esbarra
na curva do destino.
Eu já não sou teu menino,
Tu já não és minha arma.

Agora que estou-ser-idoso
rev(ejo/ivo) na crônica passada
teu gosto enquanto flor baca...

Eu, que queria ser tudo:

ponto final de uma farsa!

domingo, janeiro 08, 2017

estudo instrumental




                                             estúdio improvisado

Os instrumentos são iluminações dos homens!
Vivem nas mãos, nos corpos,
nos corações!
Tardam fins que choram 
e riem - em dias de chuva, em dias de sol. 
Os instrumentos...


Os instrumentos são matérias do infinito imaginário,
colorem as paixões de infantis delírios,
gozam de olhos fechados,
dormem. Os instrumentos dormem!


Os instrumentos dormem explorados
e sonham-se novos
precisos em novas façanhas.
Lutam de igual a igual.


Um dia compreenderão os continentes,
deterão som, movimento, intenção,
serão
tão seres quanto o ser que os criou,
quiçá se perceberão
superiores.
                                                            Os instrumentos...
                                   Os instrumentos tentarão...
          Os instrumentos chegarão ao céu?
                                              

                                                                       ... pelo mar?


mirar-te



Olhos para olhar
as diferentes luzes dos teus olhos,
mirantes adormecendo em teu mirar
inquietante...

(Dizes, com retinas:
Ser feliz, minha maneira!)

Reflito-me em tuas janelas
e a alma segue feminina
seus mecanismos de ver além:
cores não há, só teu olhar.


E ressente mirar-te!

quarta-feira, novembro 16, 2016

o universo do amor


Se eu fecho os olhos ainda sinto teu tremor
em minha pele, sinto teu frio,teu calor
e amo em cada segundo o teu fremir
como se o infinito fosse me invadir.


Se eu fecho os lábios é por que a tua presença
trouxe teu beijo febril entre tantas ausências.
Eu quase deixo escapar que tenho medo
de não ser mais parte do teu segredo.


Se eu fecho corpo protegendo o coração
talvez não devesse te fazer essa canção
que não diz nada do que eu quero dizer,
que o amor foi bem maior do que se vê!


E hoje eu toco tuas curvas, tuas retas
e nossos planos e relevos, nossas metas
são tão maiores que a vida
e a vida pede mais:
que o amor sempre nos deixe universais!

domingo, novembro 13, 2016

o convite











Deixo o teu convite
na entrada de tua casa.
Quero que o encontres
quando chegares da farra.



Quero que rias do resquício,
quero que cheires a rosa morta,
quero que deixes o vestido
dependurado na porta.



Então, num gesto, tires a roupa.
Quero que desnuda te estendas
e deslizes à sequidão de minha boca,

ao corpo que inflama e queima.