Quinta-feira, Julho 09, 2009

inquietações da escrita

Não,
não se escreve por razão,
é sobre o corpo algo preciso,
calado
e
sonoro,
algo que ilumina,
algo que água a boca,
perfuma
e
adoça
e
fede
e
salga,
algo de sentidos próprios,
algo de perceber desatento,
sentimento
e
intento,
algo que se atreve,
algo de resposta ao vento,
nada
e
tudo,
algo que de tão preciso...
algo que de tão metafórico,
pertuba
e
aquieta,
algo que escapa frágil
e
se oferta intenso.

Sexta-feira, Julho 03, 2009

poema aos aparatos gráficos de Aníbal Machado

...


(POR DENTRO DO SILÊNCIO)




dentro da pedra esperaR
debaixo das águas sorriR

o silêncio sem populações,
a cidade desfeita das cidades,
o rastro anulado no vento,
e todas as palavras adormecidas


...

Sábado, Junho 27, 2009

movimentos

É simples mover palavras,
dar-lhes diferentes funções.

Difícil é se mover com elas!

É preciso saber os olhos
que compreenderão seus movimentos!

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Lá de cima

Cá está a entrada
entre troncos mortos fincados na terra
a sustentar arames de farpas.
Não inaugures com teu passo
novos passos sobre o velho caminho,
a velha trilha de terra, de pedra, de areia
que subitamente te leva àquela serra.
Não penses um só passo
diante do adiante tão afoito
de novas curvas, de novos ramos debruçados
sobre um decline e outro,
de novas estratégias de caminhar
sempre em frente de presente.
Não lance tuas pegadas
pelas propriedades desconhecidas,
não pules esta cerca, este limiar de privações.
Não ouses avançar sobre a serra:
esse adorável relevo de proporções diversas
e suas veias secretas murmurando entre as rochas.
Não teimas tanto esforço sobre suas fendas,
não deites tanto suor nessa geografia,
nem tentes te elevar em movimentos bruscos.
Lá nada existe, é alto, é vago
e como diz o ditado tem outra serra em suas costas.
Se desejas isso, que venha e mire
esses desníveis e tudo que lá está longe.
Daqui os ventos se desfazem para tomarem todo vale,
os olhos seguem suas distâncias,
a boca grita ecos, o ar é mais frio
e os ventos voltam com mais força.
Lá está a porteira de teu atrevimento,
lá está o teu rastro, aquele teu caminho
e cá estás com teu cansaço, com tua sede,
com tua respiração trôpega, com teu espanto
e enfim podemos rir do alto, na serra.

Domingo, Junho 21, 2009

para você

Somente nós dois
e tudo em volta
quase sem muito sentido.
Flores que voam,
dias que brilham,
noites que beijam de olhos atados
pelo amor,
como fazemos diante
do tempo,
sempre a ignorá-lo.

Sábado, Junho 13, 2009

um ponto ou outro (os detalhes de um desencontro trágico)

Você não é o mesmo:
depois daquela noite
tudo aconteceu tão rápido!

Você não deveria estar aqui
tentando me convencer
que as coisas dependem...

- Dependem de nada!Dependem de p. nenhuma!
Ou se faz ou não se faz,
um ponto ou outro e só!

Não deveria estar aqui...
Mas se você veio, entenda,
eu só não sei o que dizer.

Talvez não esperasse que você fosse ficar,
limpando marcas, retirando evidências,
reconstruindo cenas confusas.

Eu também não sou o mesmo:
depois daquela noite, eu sabia,
nada teria a mesma dimensão, nada!

Quinta-feira, Junho 11, 2009

sonho de uma tarde de outono

Os namorados sentados no alto da serra,
muito pertos um do outro,
abraçados pela noite desbrasada,
lançam um só olhar sobre a cidade.


Ouvem sua primeira música,
sentem seus primeiros sonhos,
teimam aquecer o vento frio
que os ultrapassa assoviando.


Pouco sabem sobre o depois,
nada além os separa do agora.
As mão unidas, os dedos entrelaçados
pretendem tecer sua memória.


Apenas amam
tudo que podem
porque
em tudo estão.


Os namorados são namorados apenas porque assim são chamados: na-mo-ra-dos!
Se para eles apenas as estrelas fazem sentido ao infinito,
apenas as estrelas, apenas sua distância, apenas seu universo
e os beijos molhados suspirados sob a lua cheia.


Por isso, sobre um relevo de corpos
duas almas se envolvem de estrelas
e vão ao léu pelo universo
repousados no manto do amor!

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Abraços

a João





Acordar e abraçar
o pequeno ser ao lado,
cria de alguém criado
para o amor sem limite.

Acordar e o apertar
nos braços, ressentí-lo
nos braços e sentir seu coração
bater no peito - perfeito!

Abraçar seu nome
e seu olhos claros, azulantes.
Abraçar seu jeito e gesto
de um momento e instante.

Abraçar seu riso,
seu sorriso de dentes,
seu corpo frágil,
seu amor de manhãs...

Adormecer e seguir
o mesmo rito
e até fazer dele em si
mito.

E adormecer e sonhar
seu ser
nunca distante
sempre em abraços!

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Folhas são!

www.kboing.com.br





Não...
as folhas caem naturalmente
nas aguas do rio,
naveguam.
Enquanto as pedras fazem pose
de aranha, de objeto
no incurso
do descurso!

Não...
as folhas, marginais que são,
ao tempo, não
pedem explicação.
Quando fólha à correnteza
dos cuspis espumantes
nunca tem certeza!

Não...
as folhas têm outono
para se lançarem
secas.
Enquanto em quedas,
em desníveis
espraiem-se entre as metas:
natureza?

Sábado, Maio 23, 2009

um confissão, um e-mail

Querida Maria,

há muito não lhe teço qualquer alguma consideração. Posso lhe dar uma quase devida explicação: é por necessidade monográfica ou por não saber escrever, ao certo, corretamente. Acho que não tenho em mim a língua positiva, nem espero pelo "quinto império", segundo Padre Antonio Vieira. Estou faz duas páginas do mínimo exigido para o término de tal texto e não encontro uma saída. Eu sempre fui péssimo em compromissos, mormente nos precisos textuais acadêmicos, em que se forjam a competência e o espírito crítico e a desenvoltura de raciocínio linear. Acho que devo me assumir não competente, alguém que pensa em círculos. Um mestrado seria o cúmulo para meu desprendimento agora. Antes de tudo pesquisava tudo, com precisão, com devido cuidado ancestral, com presença tônica e lia, lia, lia. Hoje não leio: fragmento pensamentos. E a minha presença, tanto átona, quanto ambígua. Ai... saudade de suas aulas, das suas explicações de colocações pronominais. É-me necessário advertir que minha escrita é arcaica e meu egoísmo é imensurável: eu sei. Mas antes que eu mesmo me subtraia, há algumas gentes que não me salvariam de mim mesmo, nem da minha vã filosofia. A ideia não irá por diante, não hei de aproximar-me do ridículo da cobardia. Escreverei a esmo relatórios e pés de páginas, doutro jeito alguns sofismas e referências diversas. Contudo não acredito, essas grafias eram a ser uma mensagem de acolhida e vejam em que deu: uma confissão chata e atrevida!



Obs: Maria Regina, minha eterna professora de Morfossintaxe!

Terça-feira, Maio 19, 2009

Um poema Composto

Um dia pensei que era preciso
mais vozes soltas para se ter um poema,
era preciso um sonho de imaginar!
Pensei, então, em escrever um poema formiga:
pequeno, um poema como uma raiz,
que penetrasse dentro da terra.
Pensei em escrever um poema borboleta
(que, antes, fosse um poema lagarta)
com várias cores e que move suas asas com beleza,
um poema de diversa natureza.
Também pensei um poema pássaro
Com vôos rasantes e piruetas no ar,
mas ao imaginar um poema pássaro,
veio-me o gosto de um poema céu,
e do poema céu fluiu o imaginar do poema sol.
Mas quando pensei o meu poema sol,
lá de longe, veio alguns poemas nuvens
e o encobriram.
Pensei, então, num poema de vento,
que soprasse para longe aquelas formas,
mas imaginei um poema de chuva,
de gotas caídas do céu,
um poema líquido, um poema que lava,
um poema para depois secar.
Imaginei um poema arco-íris,
um poema colorido para depois das águas,
que viesse entre os poemas montanhas,
cheio de relevos e ondulações.
Também um poema como aquele,
De um poeta bem distante: o poema
Em linha reta.
Mas o poema mais bonito,
o poema que me inflama os olhos,
o poema que não diz, nem tateia,
é o poema sonho
que além do que imagino, existe!

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Sobre teu coração, amor

foto:www.prahoje.com.br




Sobre teu coração
que bate acelerado
eu sou um homem
feliz e apaixonado.

E ouço tua respiração
e sinto o teu querer
e sobre teu coração
eu posso adormecer!

Sexta-feira, Maio 08, 2009

medo do outro

Eles têm medo do outro:
tanta igualdade,
pouca diferença.
Falam para calar,
para esconder
que não suportam escutar.
Medo!
Medo de serem descobertos
fracos como todos,
tentam ser fortes
pisando sonhos alheios.
Não se bastam
e não prestam à mudança.
Com olhos obtusos invejam
quem tem mãos,
quem move crenças
e decerto não viverão
(ou viverão à míngua de)
de tão medrosos!

Terça-feira, Abril 28, 2009

sOnOletO

Olhar este teu
tão findo
não crer me faz
velar, homem, senão morrer.


Infinitos são múltiplos,
olhos de depois não ser
inundados, que deveriam
a crer recuso, recurso, do improviso.


Antes me pertube,
perdoe para eu lembrar
do soneto, eu daquele escrevia...


Não, o caminho, abandone,
não coma no Mc'Donald's,
ouvidos não dê-me!

Olhos para quem te quero




A câmara supra
sensibilíssima
revela a imagem
de um sentimento.

Única sinalizadora
como uma digital,
reflete cardiologias
púrpuras visuais.

Enquanto retina
expõe-se deusÍris
num sistema nervoso
à mostra da ótica.

Amplia reduções,
diversos pontos absurdos
em pequenos mitos:
ver é dar sentido!