domingo, abril 02, 2017

encomendas e pedidos


Soneto de Danúbia




Quando te amo simplesmente à mínima hora
e sobre o teu corpo o meu corpo se assegura,
sinto-me a tarde plena da noite e a aurora
que desenha em mim eternamente tua ternura.


O teu sorriso é como toda flor de todo dia
e o teu olhar toma meu corpo por inteiro.
Perto de ti minha alma brada de alegria,
longe de ti se desespera o meu peito.


Eu sou este teu homem, teu muchacho bajo
que te olha com paixão e se entrega imenso
a cada beijo teu, a cada movimento rente,


tu és a força que envolve, o vento
que tateia a natureza danúbia do presente
e que me leva sempre em teus braços.


sábado, março 04, 2017

efeitos da natureza


Enlaçado em tuas fagulhas vão meus olhos,
como criança rodando em noite de fogos,
como criança jogando balões, riscando traques
e arriscando ataques luminosos contra a vida.
  
Enlaçado, meus olhares, em teus colares
seguem todas as cores de teu caminho
e tu, moça pulsante, sorrindo... sorrindo
com efeitos refeitos de solos lunares.

 Nem pensas em redemoinhos,
não decreta ventos ou tempestades,
mas saibas que travas a batalha

Que brasa do céu um desvario,
de relâmpagos e raios faiscantes
mesmo que não venha a água!

o resto do sonho


  


Resta um pouco de um resto açoitado
pelo vento que teima a afronta,
vem limpar a poeira do passado
e deixar o que realmente conta.


(...)


Eu concentro o meu centro no que faço,
eu mergulho na vida a minha pena,
eu seguro, eu aperto, faço o laço
e envergo a palavra no poema.

Eu descrevo, eu desejo, eu insisto,
tento romper sem vão o verso.
Vou aos poucos despindo-me de mitos
e deixando para trás velhos desertos.

Eu construo o escuro do segredo,
eu reclino o enigma do nada.
Estridente grito de medo,
eu sou feito de nuvens sonhadas.

E tudo que vejo e sinto
são teus olhos tristes e cansados
condenando-me, me ferindo,
desejando poemas queimados.


(...)


Calculado – noves fora nada –
o baú de estórias está vazio.
Recolha a última palavra
como o mar sutil acolhe o rio.

E o poema, então, adormecido
vingará quando o sol desvencilhar
o sonho: flor do abismo

que sangra sem estancar! 

o Ser evolutivo





Se aquele que foi
:
fosse
:
e noutro tempo
sem glórias
ou conquistas,
somente voasse,
não como os seres celestiais
imaginados,
mas como uma folha
sob as proporções do vento,
caísse sem mácula
sobre a terra
e semeasse,
não um novo e belo mundo,
mas a força evolutiva
 deste:

.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

DUO IMPERFEITO




Meu amor sonhávamos desnudos
quando inda éramos crianças.
Tu com tuas tranças,
eu com meu orgulho.

Brincávamos no escuro da estrada
e te amava a perder de vista...
Eu era o burocrata,
tu eras a artista.

Meu amor corríamos às léguas
debaixo da chuva rala.
Eu que molhava as pernas
tu encardias as anáguas.

Morremos no reflexo do açude,
quereríamos a vida à morte.
Tu com teu jeito forte,
eu com meu jeito rude.

Mas eis que o tempo esbarra
na curva do destino.
Eu já não sou teu menino,
Tu já não és minha arma.

Agora que estou-ser-idoso
rev(ejo/ivo) na crônica passada
teu gosto enquanto flor baca...

Eu, que queria ser tudo:

ponto final de uma farsa!

domingo, janeiro 08, 2017

estudo instrumental




                                             estúdio improvisado

Os instrumentos são iluminações dos homens!
Vivem nas mãos, nos corpos,
nos corações!
Tardam fins que choram 
e riem - em dias de chuva, em dias de sol. 
Os instrumentos...


Os instrumentos são matérias do infinito imaginário,
colorem as paixões de infantis delírios,
gozam de olhos fechados,
dormem. Os instrumentos dormem!


Os instrumentos dormem explorados
e sonham-se novos
precisos em novas façanhas.
Lutam de igual a igual.


Um dia compreenderão os continentes,
deterão som, movimento, intenção,
serão
tão seres quanto o ser que os criou,
quiçá se perceberão
superiores.
                                                            Os instrumentos...
                                   Os instrumentos tentarão...
          Os instrumentos chegarão ao céu?
                                              

                                                                       ... pelo mar?


mirar-te



Olhos para olhar
as diferentes luzes dos teus olhos,
mirantes adormecendo em teu mirar
inquietante...

(Dizes, com retinas:
Ser feliz, minha maneira!)

Reflito-me em tuas janelas
e a alma segue feminina
seus mecanismos de ver além:
cores não há, só teu olhar.


E ressente mirar-te!

quarta-feira, novembro 16, 2016

o universo do amor


Se eu fecho os olhos ainda sinto teu tremor
em minha pele, sinto teu frio,teu calor
e amo em cada segundo o teu fremir
como se o infinito fosse me invadir.


Se eu fecho os lábios é por que a tua presença
trouxe teu beijo febril entre tantas ausências.
Eu quase deixo escapar que tenho medo
de não ser mais parte do teu segredo.


Se eu fecho corpo protegendo o coração
talvez não devesse te fazer essa canção
que não diz nada do que eu quero dizer,
que o amor foi bem maior do que se vê!


E hoje eu toco tuas curvas, tuas retas
e nossos planos e relevos, nossas metas
são tão maiores que a vida
e a vida pede mais:
que o amor sempre nos deixe universais!

domingo, novembro 13, 2016

o convite











Deixo o teu convite
na entrada de tua casa.
Quero que o encontres
quando chegares da farra.



Quero que rias do resquício,
quero que cheires a rosa morta,
quero que deixes o vestido
dependurado na porta.



Então, num gesto, tires a roupa.
Quero que desnuda te estendas
e deslizes à sequidão de minha boca,

ao corpo que inflama e queima. 



sexta-feira, novembro 11, 2016

amigo-amor



Foi perdida na confusa procissão de desejos,
que você provoca em mim
que eu sonhei os dias perfeitos.
Eu que senti nas mãos, no toque, no cheiro,
no seu repouso em meu colo,
no seu desabafo,
o seu olhar excitado
pela palavra que nunca foi dita,
pelo longo momento tão breve,
pela distância inexata que tínhamos de nossas fronteiras:
falamos línguas distintas,
vestimos costumes diversos;
somos amigos confessos
da promessa de um dia não sermos
ou sermos além-coisas de um mesmo verbo!

Mas, se não chegamos a sê-lo (?),
sabemos (inconfessável)
que éramos distantes estrelas
em dispersa gravidade
e que (inconfessável) por nada ou quase tudo
entreolhamos-nos em mútua aquisição
e na mesma órbita quase colidimos.
O que foi?
Eu tive medo,
medo de tocar-lhe com força maior
que minha força,
medo de não ouvir meu nome em seus lábios,
medo de ouvi-lo sem gesto de zelo.

Atormenta-me a aparência que o seu amor secreto
tem com a minha face dolorida,
eu que olvidei os descompassos do seu coração
e que não me debrucei em sua sombra.
Então, foi o medo?
Não sofrer o sofrer do seu gosto,
não perder-me e encontrar-me em seu corpo?
Não tardar desvendar seu segredo?

Foi perdida na confusão que meu corpo celebra
que eu ocultei a minha verdade proibida,
(o mau uso da palavra certa)
que lancei os olhos sobre o nada,
que iludi as mãos que eram-me aflitas.
Talvez, um dia,
como um raio que irrompe e rompe
a mais negra nuvem da mais negra tempestade,
eu lhe confesse o mais triste segredo,
quando já não for um segredo.
Nada fica oculto sobre a pele,
aos olhos que não se fecham
á alma que sela a dor de amparar o amor
e não prová-lo:
as afinidades eletivas!

Você é exato o homem que me atiça
e torna mais simples a minha vida
e que move demônios esquecidos.
É você, meu amigo-mais-que-amigo
(que dia!)
Inconfessável criança,
eu seria o tempo e o amor,
eu seria o seu melhor brinquedo,
eu seria o seu maior pecado,
o seu erro e a sua anomalia.
Mas se eu pudesse (ter um desejo de vida...)
viveria os últimos dias ao seu lado...


Compreende nossa confusa poesia?

sexta-feira, outubro 21, 2016

mas nem sequer ouviste o que eu não disse


Não, não feche os olhos, não feche as mãos!
Fique dispersa na ventania,
deixa que teu cabelo se perca no céu
perca teu senso!
Não, não cruze os braços...
sinta a chuva que encharca a noite...
Não, não parta, não leva, não deixa,
a tua ausência,a tua moldura,tua tela em branco.
Esse teu jeito de girar,girar,girar...
esse teu sorriso movendo a felicidade
destes estancados homens perdidos.
Esse olhar que se põem atrás das nuvens,
que espera os segundos de suspense
para se revelar transparente,
translímpido, amante.
Esse teu falar de sussurros roucos
que gelam a conduta corporal,
ecoa nas ruas,atravessa as praças
e chega ate mim,
apenas um ouvinte!
Há o dito seguinte
que se a palavra não veio é por que os olhos
retiveram sua beleza,
mas fora tão desejado dizer,
quanto então ouvir e olvidar.
Não era o lugar o alto
no salto de se revelar,não, não feche as mãos;
no instante de se confundir,não, não feche os olhos;
no tempo ao vento
sabias que eras a luz mais bela,
o fogo que mais ardia,
e eu tentava te dizer
num canto do sistema solar
que era preciso voar
para se distrair
mas já não podias me ouvir.

segunda-feira, outubro 10, 2016

sempre








Ao caminhar pela noite
o homem solitário pensa
que de todas as possibilidades
ele é a mais remota.
A sua rua é torta,
o seu passo é confuso
e quando alguém se apressa
em ter com ele
algumas palavras de protesto,
ele sussurra a sua canção
misteriosa,
ele sorri em seu silêncio,
ele se encolhe em seu vazio.
Não é solitário, está por aí.
Certamente não olha
as janelas das casas,
não se atira sobre as salas,
às varandas, pelas portas.
Seu gesto é contido,
embriagado de censura
vaga entre ilusões passageiras.
Precisa ser livre, mas está preso
aos costumes,
às estrelas e às suas lendas.
Precisa do grito,
da força,
de asas.
Se cruzam o seu caminho:
(e sempre cruzam)
há de notar todo olhar
com certo jeito vadio:
ainda é criança, criança é ainda ademais.
Conversa com o poste da esquina,
fala de amor em palavras perdidas,
engole artigos suspeitos
e rasga o peito, o chão:
seu riso é lágrima!
A noite é triste para esse ser
esquecido nas ruas, nas praças de outrora!
e quase sempre ele ri!
e quase sempre ele chora!
quase sempre ele sempre
caminha sonhando e sorrindo...

domingo, outubro 09, 2016

Como esCulpir um Colar






Dessa noite de outono retire

uma fotografia.

Pegue linha de nylon 0.5

e faça a escolha da ponta.

Corte um pedaço da escolha

diagonalmente

e queime e prense com delicadeza.

Enlace a imagem com o fio:

quatro lances de contorno,

bem cerzidos.

Pegue pedras – preciosas ou imprecisas – coloridas,

de todos os tamanhos, de todas as texturas.

Escolha o pequeno pedaço de pedra que pretende

teus olhos e teus olhares

e o extraia de sua origem.

Com cuidado, dê-lhe significado,

explique-o embora não o saiba.

Dê-lhe notas dissonantes

diminutos acordes, experimente...

Prepare naquim  e verde-oliva

para retocar as presilhas,

use ganchos perolados.

Prenda tudo com precisas nuanças

e fazendo mudanças de luar,

retire o ar e deixa

que o coração se acalme.

Sinta-o completar a alma,

lave-o com o corpo,

tome-o com a distância.

Então, de súbito, prenda

com toda delicada

presença

teu colar: amor,

no contorno da amada! 

segunda-feira, agosto 15, 2016


tudo que é dito
magoa
ecoa
pelo abismo
de sentidos
a palavra ambígua
desfocada
sufocada
rasgada
no improviso

e tudo
é nada

um dístico!

ausência


por que a distância toca seus dedos finos e secos
e em noites que há tanto silêncio quanto escuro,
não deixa a sombra da lua romper o muro
e não condena o vazio desses ecos?

por que, então, soletra do tempo qualquer murmúrio
se não percebe que o tempo é só um reflexo?